Aprenda a usar! Travessão de diálogos

Finalmente encontrei alguma coisa mais completa sobre o necessário e complicado travessão. Tão importante na narração.

O travessão (—) serve geralmente para indicar tanto as intervenções ou falas dos personagens (travessões de diálogo), como os comentários do narrador, enunciados com os chamados verbos de elocução. No primeiro caso, o travessão vai colado à letra inicial da palavra com a qual se começa a fala do personagem, sem haver comentário do narrador no mesmo período. No segundo caso, vai precedido de um espaço quando começa o comentário do narrador, que é constituído de algum verbo de elocução, e seguido de espaço novamente quando termina o dito comentário (note-se que nesse segundo caso, os travessões são empregados quando o comentário do narrador encontra-se dentro da fala).

Obs.: em teclados que não possuem uma tecla específica para o travessão (—), o qual é mais extenso que o hífen (-), ao menos no microsoft word, tem-se o travessão combinando-se as teclas ctrl + alt + traço do teclado numérico, ou se pode conseguir um travessão um pouco mais curto (–), porém ainda maior que o hífen, teclando-se Alt + 0150.

Vejam-se, a seguir, 10 diferentes exemplificações:

—Descobri que tenho cabeça e estou começando a ler! (1)

—Oh, obrigado. Muito obrigado por suas palavras —murmurou Maria. (2)

—Somos muito unidos —replicou João— e vivemos todos juntos. (3)

—Asseguro que, com o tempo —disse Carlos com decisão—, tudo dará certo. (4)

—Maria, volte! —gritava Pedro—. Preciso falar com você agora! (5)

—E você entende isso? —perguntou Joaquim—. Não leu o que está escrito? (6)

—É o que eu gostaria de escrever… —sussurrou—. Poesia. Ensaio. Uma boa novela. (7)

—Isso não pode continuar assim. A coisa foi demasiado longe —levantou-se, ao mesmo tempo em que olhava as mãos—. Tenho que me impor e acabar com essa loucura. (8)

—Isso não pode continuar assim. A coisa foi demasiado longe. —Levantou-se, ao mesmo tempo em que olhava as mãos—. Tenho que me impor e acabar com essa loucura. (8.1)

—Sim, meu amigo, assombra-me sua coragem —disse ela com assombro. E depois depois de alguns segundos acrescentou—: Admiro de verdade seu sangue frio. (9)

—Já sei no que está pensando —disse a vendedora—: Na cor vermelha. Todos querem o mesmo. (10)

Explicações aos exemplos acima, embora já falem por si:

1) É o caso mais simples, observando-se que o travessão de arranque do diálogo vai grudado na primeira palavra da fala, não havendo necessidade de travessão no final da frase.

2) Como se vê no segundo exemplo, não há necessidade de travessão depois do comentário do narrador.

3) No terceiro exemplo, observam-se que os travessões que englobam o comentário do narrador vão colados a ele, mas, notando-se que esses travessões não se unem de forma alguma às falas dos personagens.

4) No quarto exemplo, a vírgula que se segue à palavra “tempo” deve ser posta depois do travessão de encerramento do comentário do narrador, nunca antes.

5, 6 e 7) Nos exemplos quinto, sexto e sétimo, pode-se observar um “ponto” depois do travessão que encerra o comentário do narrador, ainda que a fala do personagem leve pontos de exclamação, interrogação ou reticências (pois estes não possuem função de encerramento da frase).

8) Na primeira variante do exemplo oitavo, vemos que antes do comentário do narrador não figura “ponto”. Pode-se justificar essa escolha aduzindo que, embora o comentário não tenha relação direta com o diálogo, considera-se implícito um verbo de elocução tal como “dizer”, “afirmar”, “acrescentar”, “perguntar”, “falar”, “insistir”… (ex.: “—disse e levantou-se”, “—disse levantando-se”, “—disse e, em seguida, levantou-se”, etc.).

8.1) Mas se for considerado que o início tem relação direta com a fala anterior, o diálogo pode dispor-se tal como foi indicado no exemplo oitavo, mas observando agora que na continuação é colocado um ponto depois de “longe” e que o comentário do narrador começa com letra maiúscula.

Em qualquer dos dois casos anteriores, no que se refere ao travessão de encerramento do comentário do narrador, não se deve pôr “ponto” antes desse dito travessão.

9,10) Também nos exemplos nono e décimo há uma marcante tendência à unificação, no sentido de que os “dois pontos” costumam figurar depois do travessão que encerra o comentário do narrador. De acordo com esse critério, que também tem a virtude da simplicidade, passa-se por alto essa distinção: no nono exemplo, os “dois pontos” pertencem ao comentário do narrador, enquanto que no décimo exemplo, fazem parte da fala do personagem, e isso se percebe claramente se os travessões e os comentários do narrador forem suprimidos, pois em assim o fazendo, os “dois pontos” perdem sua função no nono exemplo, mas devem permanecer no décimo exemplo.

Todavia, deve ser dito que os exemplos acima não são exaustivos, pois existem inúmeras outras maneiras de se trabalhar com “travessões” em diálogos, havendo escritores que preferem nem usá-los, lançando mão de outros artifícios gráficos, tais como aspas, vírgulas e mesmo o hífen. Assim, cabe a cada um que escreve tentar encontrar a forma que mais se adeque à sua maneira de trabalhar com a escrita.

N. B.: Texto analisado, traduzido, resumido e adaptado do castelhano por H. R. Cenci (autor anônimo)

http://hrcenci.blospot.com
Leitura & Literatura: Arte de Escrever

Além disso encontrei algumas particularidades no uso do travessão no site Recanto das Letras:

a) A vírgula que se colocaria antes do termo que precede o primeiro travessão transfere-se para depois do segundo ou se o segundo travessão coincidir com uma vírgula, usa-se os dois sinais:

• Martin Francisco, já abraçando os amigos — pois se anunciava pelo alto-falante a partida do ônibus —, disse: [...]

• Essa mensagem do jornal, publicada na edição de novembro – especial, com 20 páginas –, já indicava a disposição…

• Depois de ter quitado 24 prestações, de um total de 50 – a última foi de R$ 589,20 –, o mutuário tentou transferir…

b) Sinais como o ponto de interrogação, de exclamação e as reticências, pertencentes ao enunciado entre travessões, ficam antes do segundo:

• Um observador — e não precisa ser muito arguto! — notaria nas faces da maioria dos convivas um curiosa mescla de alegria forçada [...].

c) Jamais coloque mais de dois travessões no mesmo período, para não confundir o leitor:

• Essa prática – que privilegia o filho mais velho – é muito antiga e a Bíblia dá um exemplo – o de Esaú e Jacó – em que o primeiro vendeu o direito de primogenitura – e por um prato de lentilhas.

d) Não recorra ao travessão e sim à vírgula, para isolar os verbos de uma declaração: Todos nós,prosseguiu, temos consciência dos problemas do País.

• Com essa medida, garantiu o presidente, seria possível apressar a votação.

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One Response to “Aprenda a usar! Travessão de diálogos”

  1. [...] Travessão de diálogos [...]

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